Criança na terapia?

Era início do ano letivo de 2017, Pedro estava ansioso pela volta às aulas, reencontrar os amigos, as professoras… E no primeiro dia de aula, ele viu que, as duas professoras que o acompanhavam nos dois últimos anos não seriam as professoras do 3º ano.

Além da mudança de professoras, uma delas acabou na apresentação do primeiro dia de aula, falando pra eles sobre as responsabilidades que os aguardavam no 3º ano.

Para  o resto das crianças as frases caíram como outras quaisquer. Mas para o Pedro, uma criança que é muito responsável e se cobra demais, foram frases que não saíram da sua cabecinha, e começaram a gerar um certo pânico.

No mesmo dia, não sei em que contexto, o professor de Educação Física falou quena época da faculdade,  trabalhava de manhã enquanto estudava a noite, para pagar os estudos.

Outra pessoa falou algo em torno de que na faculdade o almoço não estava incluído como na escola…

Ao mesmo tempo, o primo dele que morava no interior passou na USP aqui em São Paulo, e ele viu a movimentação aqui em casa para procurarmos onde o primo ia morar, se pensão, ou apartamento etc…

Isso tudo foi tomando proporções muito grandes na cabecinha dele e quando ele chegava na escola, e a professora começava a falar ele se punha a chorar, e entrava em pânico. Ninguém entendia porque. Me ligavam, eu ia lá, ele se acalmava, mas no dia seguinte, o desespero batia de novo.

Era um desespero mesmo. Ele não sabia falar exatamente o que era. A princípio ele falava que a professora falava muito alto. Mas eu cheguei a ficar do lado de fora da sala, ela não falava. Ela apenas tinha um timbre de voz diferente da outra professora. Mas falava baixo.

Olha, foi uma semana muito tensa. Ele já começava a chorar de casa, antes de chegar na escola. Uma escola que ele sempre amou, que estuda desde os dois anos.

Eu tentava conversar com ele, e ele só me dizia que sentia vontade de chorar, não sabia explicar. Eu estava sentindo a sua dor, a sua angustia.

Eu perguntava insistentemente se alguém tinha feito alguma coisa, se alguém tinha falado alguma coisa pra ele que o magoou, mas ele dizia que não.

O máximo que saía era que ele estava preocupado com o terceiro ano, que ele não ia dar conta. ( imaginem, um menino super estudioso e que só tem notas ótimas! Eu me perguntava, de onde tirou isso? Eu não sabia de nenhuma dessas conversas que contei aí em cima).

Depois começou a se questionar, e ME questionar, como ele faria para pagar a própria faculdade, a moradia, a alimentação dele quando ele fosse maior , como ele daria conta de trabalhar de dia e estudar a noite? Se ele ia trabalhar de dia, como ele ia fazer as lições da faculdade e estudar pras provas?  ( gente imaginem a cabecinha dele onde estava? Como estava aflita, misturando assuntos, desesperada!)

Por mais que eu falasse pra ele não se preocupar com aquilo, que não era hora, ele não cessava os pensamentos. Eu tentava todas as respostas possíveis, pra ele deixar o assunto pra lá: dizia que ele talvez nem precisasse pagar a faculdade, que se precisasse o papai e a mamãe iam pagar, enfim…cada resposta que eu dava vinha uma nova questão.

Ao fim da primeira semana, eu já havia decidido que procuraria ajuda. Porque não era um chorinho de manha, ele estava desesperado. E sinceramente não me senti “menos mãe” por pedir ajuda!

Procurei uma psicóloga infantil para me ajudar, e posso dizer pra vocês sem sombra de dúvidas que foi a melhor coisa que fiz.

Gostei muito dela e confiei plenamente no seu trabalho (isso é muito importante). E olha, a psicóloga não vai só te dizer o que você quer ouvir, que fique claro. Se ela tiver que dar um puxãozinho de orelha, ela vai dar e se você vai procurar ajuda, esteja aberta a ouvir. Porque conheço gente também que não ta afim de ouvir o que a profissional tem a dizer…)

Pedro é muito ansioso, e tem uma idade mental (segundo os testes que realizou) um pouco avançada para a idade cronológica dele. Isso pode ser bom, mas também pode ser ruim.

Ele saiu dessa crise rápido, mas sem ajuda profissional, talvez as coisas tivessem piorado. Lá com ela, ele conseguiu identificar as emoções, os medos, entender que aquelas preocupações não eram pertinentes a idade dele.

Aprendeu a se controlar num momento de crise e melhor, identificar que estava entrando nesse processo. Ele com freqüência dizia,”eu comecei a ficar preocupado com tal coisa mas daí respirei, pensei que não precisava pensar naquilo, que faltava muito tempo ainda…”

Enfim, eu disse que ele saiu da crise rápido, e saiu. Mas fomos identificando outros pontos que valiam a pena ser acompanhados, como por exemplo ele andava com auto estima muito baixa, porque é um dos menores da sala de aula, e uns meninos do prédio começaram a chamá-lo de baixinho no jogo de futebol.

Quando ele disse isso pra mim, eu simplesmente falei  “ah filho, deixa eles”…não dei bola sabe? Aquilo realmente não me pareceu importante. Mas pra ele era, e muito. Pedro sempre foi vaidoso, mas andava mais desleixado porque estava se sentindo inferiorizado. Foi bem importante ele ter o apoio da psicóloga nesse quesito, porque eu realmente , sem culpa nenhuma, digo que não dei importância. Depois de identificarmos, levei na pediatra, fizemos o exame do pulso, e ele viu que esta dentro do tamanho que deveria estar, saudável e tudo normal. Entendeu que ele ainda pode crescer, foi identificando outros familiares homens que não são muito altos, e que tudo bem, isso não seria um problema.

A medida que ele tratava toda aquela ansiedade do inicio do ano, fui percebendo que, ele estava melhorando, mas estava com uma “ansiedade física”muito aparente. A questão era que, ele havia se acalmado mentalmente mas o corpo não parava, sempre se mexendo, sassaricando, escovava os dentes andando pra lá e pra cá, tava fazendo lição sentado, já já estava em pé, estava vendo TV , daqui pouco estava em pé apoiado no sofá pulando de um lado pro outro… sempre chacoalhando as mãos, pondo a mão na boca biliscando os lábios, enfim…

Isso era natural e pertinente ao momento, e aos poucos, fomos tratando e ajudando ele a perceber, a se perceber.

No fim do ano ele já poderia ter tido alta mas junto com a psicóloga, resolvemos esperar o inicio do novo  ano letivo, a nova troca de professoras e ver como ele iria encarar. E foi tudo muito bem!!!

Sobre a terapia, ele simplesmente adorava ir nas sessões. Ele jogava,pintava, fazia desenhos, escrevia historias, enquanto ia conversando com a psicóloga . Pra falar a verdade ele não queria que acabasse, gostava de ir, e ontem, quando se despediu dela, entrou no carro com os olhos marejados.

Fomos descobrindo junto com ele tantos detalhes, coisas do dia a dia que podíamos melhorar, pequenas coisas que passariam despercebidas.

Foi muito bom fazer terapia, e se você está passando por algum tipo de dificuldade com seu filho, na escola, ou de comportamento em casa, pense nisso. Não deixe que o preconceito impeça de procurar uma ajuda qualificada para o bem do seu filho.

Você não será uma mãe pior ou melhor porque precisou de ajuda profissional. Seu filho não será uma criança inferior só porque foi a um psicólogo.

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7 Comentários para "Criança na terapia?"

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    Dani Tonolli 24 de maio de 2018 (15:19)

    Lindo relato! Me emocionei! Parabens pela iniciativa!

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    Fernanda Medina 24 de maio de 2018 (15:25)

    que lindo! amei! procurar ajuda é uma imensa demonstração de amor!

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    Carolina 24 de maio de 2018 (18:11)

    Que texto mais lindo …
    eu também faço terapia e eu Amoooooooo

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    Paula 1 de junho de 2018 (00:57)

    Seu relato foi sensacional. Eu sou uma adulta ansiosa. Hoje, sou muito mais razoável e controlada, mas sofri muito no início da vida adulta. Acredito que você saiba, mas a ajuda que você deu ao seu filho vai muito além dos sintomas aparentes. Para os ansiosos crônicos, ele encontrou algo fundamental – como processar melhor seus instintos naturais e diminuir o sofrimento em razão deles. Eu levei mais de 25 anos para conseguir e sei que tudo poderia ter sido mais fácil. Palmas para vocês!!!

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